Por: Márcia Camargo
Especialista em Coordenação Pedagógica
1. Breve Histórico
Analisando a questão específica do
desgaste do planejamento junto aos educadores, levantando algumas hipóteses
para explicá-la, percebemos que a atividade de planejar é tão antiga quanto o
homem, mas a sistematização do planejamento se dá fora do campo educacional,
pois surge ligada ao mundo da produção sendo preconizada por Taylor,
configurada em dois termos: objetivos e estratégias. No contexto do modo de
produção capitalista, surge com a Revolução Industrial a preocupação com a
eficiência do processo produtivo já evidenciando princípios de alienação do
trabalho a partir da separação das funções das tarefas de planejamento. Para
Taylor, organizar cientificamente o trabalho implicava a distinção radical
entre concepção e realização, princípios pautados na eficiência da experiência
militar; um empreendimento que desde cedo buscou a eficiência, originando o
surgimento da ciência da administração, no final do século XIX; influências que
respaldam e justificam essa concepção de planejamento. Interessante observar
que as experiências militares determinaram os caminhos das ciências em todas as
áreas do desenvolvimento humano. Com a ciência da administração, o campo
para o planejamento tecnocrático, é sistematizado focalizando a divisão do
trabalho e a hierarquia do poder econômico.
No século XX, o planejamento
expandiu-se para todos os setores da sociedade. Atualmente, são identificadas
três grandes linhas em termos de planejamento administrativo: o gerenciamento
da qualidade total, o planejamento estratégico (utilizado na construção do PPP
da SEEDF - Projeto Político Pedagógico Profº Carlos Motta/2012) e o
planejamento participativo. A escola, naturalmente não ficou imune a este
movimento.
Ao Analisarmos a história da educação
escolar, percebemos diferentes concepções do processo de planejamento.
Apontamos três grandes concepções que vão se manifestar em diferentes momentos
da história do planejamento:
a. Planejamento como Princípio
Prático
Esta concepção está relacionada à
tendência tradicional de educação, em que o planejamento era feito sem grande
preocupação de formalização, basicamente pelo professor, e tendo como horizonte
a tarefa a ser desenvolvida em sala de aula. Os planos eram apontamentos feitos
em folhas, fichas, cadernos (tipo semanário, até hoje utilizado por professoras
de séries iniciais), a partir de leituras preparatórias para as aulas. Uma vez
elaborados, eram retomados cada vez que ia dar aquela aula de novo, servindo
por anos e anos. O planejamento pedagógico do professor no sentido tradicional,
a rigor, não era bem um planejamento; era muito mais um roteiro que se
aplicaria fosse qual fosse a realidade. No entanto, observa-se que o plano, com
efeito, orientava o trabalho do professor, tinha uma função, vale dizer, havia
uma estreita relação entre planejar e acontecer.
b. Planejamento Instrumental
/Normativo
Esta concepção surge no Brasil, no
final da década de sessenta com a tendência tecnicista de educação, de caráter
cartesiano e positivista, onde o planejamento aparece como a grande solução
para os problemas de falta de produtividade da educação escolar, sem, no
entanto, questionar os fatores sociais, políticos e econômicos, até em função
de sua pretensão de neutralidade, normatividade e universalidade. A exigência
técnica na elaboração do planejamento justifica, ideologicamente, sua
centralização nas mãos dos especialistas, fazendo parte de uma ampla estratégia
de expropriação do que fazer do educador e do esvaziamento da educação como
força de conscientização; favorecendo a alienação e ao mesmo tempo, a
competição entre professores e técnicos. Fator relevante na história da
educação escolar brasileira, pois ainda hoje, reflete em muitos dos problemas
que se colocam na prática escolar. A competição, a disputa de influência e
poder, têm sua explicação na origem da função controladora do planejamento
educacional como forma de manutenção do sistema.
O saber do professor foi sendo
paulatinamente desvalorizado, levando-o a uma perda de confiança naquilo que
fazia. Planejar passou a significar preencher formulários com objetivos
educacionais gerais, objetivos instrucionais operacionalizados, conteúdos
programáticos, estratégias de ensino e avaliação de acordo com os objetivos. Aliado
ao processo de desgaste do professor, a má formação, má remuneração, falta de
condições de trabalho, surge a indústria do livro didático trazendo o
planejamento pronto e quase que induzindo o professor à cópia.
c. Planejamento Participativo
O planejamento participativo é fruto
da resistência e da percepção de grupos de educadores, ligados à educação
popular, movimentos de base da igreja católica, partidos de oposição aos
regimes autoritários; que se recusaram à atuação reprodutora do sistema e
buscaram alternativas de fazer educação, portanto, de planejá-la. Nesta
concepção de planejamento o saber deixa de ser uma ação de propriedade de
especialistas, passando-se a valorizar a construção, a participação, o diálogo,
o poder coletivo local, a formação da consciência crítica a partir da reflexão
sobre a prática da mudança. Tem como objetivo “a transformação das relações de
poder, autoritárias e verticais, em relações igualitárias e horizontais, de
caráter dialógico e democrático”. O planejamento é entendido como um
instrumento de intervenção no real para transformá-lo na direção de uma
sociedade mais justa e solidária.
É preciso clarificar que tais
concepções de planejamento não se sucedem linearmente; pelo contrário, convive
na mesma realidade e, não raras vezes, no mesmo sujeito. O importante é a
tomada de consciência dessas influências e a definição de uma nova
intencionalidade para orientar a prática do planejar.
2. Elementos
comprometedores do sentido e força do planejamento:
a. Idealismo
Há uma tendência no contexto educacional
de se valorizar as ideias em detrimento da prática e mesmo de superestimar o
poder das ideias, como se bastasse uma ideia clara para que, automaticamente,
acontecesse uma alteração da realidade. Essa tendência pode levar o
planejamento a expressar uma série enorme de boas intenções e coisas que gostaríamos
de fazer, mas que não têm o menor senso da realidade; desvinculando-se das
reais condições materiais e estruturais da instituição e da sociedade. Seria
essa tendência a causa do descompasso entre aquilo que é esperado do professor
e as condições objetivas de trabalho que são oferecidas. Nesse caso, o
planejamento cumpre um papel ideológico, de ocultação das verdadeiras
contradições da realidade, uma vez que somente o enfrentamento dessas
contradições, nas suas bases concretas, é que permitiria a efetiva mudança da
realidade, ainda que num nível e ritmo muito aquém do que desejamos. O idealismo
é a hipertrofia da ideia em detrimento da realidade, é um grande fator de desmoralização
do planejamento: a ideia vai para o papel, mas não acontece.
b. Formalismo
Tendência em que o planejamento é
desprovido de sentido para o sujeito, o burocratismo, com certeza é outro fator
que gera profundo desgaste da ideia de planejar. Cumprir prazos não discutidos,
preencher formulários impostos, ter que se adequar a um saber já pronto,
técnico, etc. O professor vai tomando consciência de que o planejamento é uma
prática cartorial, uma exigência formal que não tem repercussão alguma no
cotidiano; a elaboração do planejamento de ensino fica desconexa, desarticulada
justamente por não haver um planejamento integral da escola que dê direção,
unidade e sustentação a todo trabalho. Toda essa distorção na elaboração,
naturalmente, acaba levando a um comprometimento da execução e, portanto, dos
resultados, configurando o descrédito. Quando a ênfase da escola está voltada
para o apoio à mudança da prática em sala de aula, até que o professor se
dispõe a repensar o ‘planejamento’; no entanto, quando a ênfase está na ‘escola
de papel’, o professor se fecha, não acredita. Constata-se amiúde uma
incoerência entre a importância que a escola diz que o planejamento tem e as
condições para se fazer um trabalho de acompanhamento do mesmo.
c. Não-participação
O planejamento pode ser utilizado
como instrumento de disciplinamento de professores e alunos, como meio de
dominação, na medida em que um pequeno grupo planeja e decide o destino de um
grande conjunto de pessoas, que deverão apenas executar, estabelecendo um
processo de desumanização, de alienação, já que é próprio do ser humano, uma
unidade e não uma separação entre pensar e fazer, o analisar e o decidir, o
construir e o usufruir. Uma prática utilizada por gestores sem espírito
democrático é propiciar a participação em algumas questões menores,
periféricas, sendo que as essenciais, já vêm decididas (normalmente descritas
como prescrição do departamento central): enquanto os professores estão
discutindo se a cor da parede da sala deve ser verde ou azul, a equipe gestora
discute a estratégia de matrícula.
3. Conclusão
Na representação do professor, o
planejamento acabou ficando marcado tanto pelo “não é possível planejar”,
quanto pelo “não é necessário, da forma como vem acontecendo não resolve”.
Nosso desafio é resgatá-lo como “POSSÍVEL e NECESSÁRIO”. Será que o educador
não pode dominar o seu fazer? Será possível ao educador saber o ‘porque e o
para quê do seu fazer pedagógico? Re-significar o planejamento para o sujeito
implica resgatar suas necessidades e possibilidades, em dois níveis: as
necessidades de mudança e as possibilidades de mudar.
Para estabelecer um referencial de
comunicação, esboçamos inicialmente um conceito: planejar é antecipar
mentalmente uma ação a ser realizada e agir de acordo com o previsto; é buscar
fazer algo incrível, essencialmente humano: o real comandado pelo ideal. Pois
planejar ajuda a concretizar aquilo que se almeja. Aquele algo que planejamos é
possível acontecer; podemos em certa medida, interferir na realidade. Constatamos
não poucas vezes, que o professor, diante de problemas que não domina, fica
desarvorado, não sabe como enfrentar, acusa, se irrita, agride. Não sabe o que
fazer. E por que não sabe? Porque não sabe o que quer. E por que não sabe para
onde quer ir? Porque não sabe onde está, não sabe o que é que condiciona sua
ação...
Confrontado com a formação que teve,
verifica-se que esta, com frequência, foi de caráter meramente prescritivo
(conjunto de orientações, quase mesmo receitas, de como “se deve agir”), ao
invés de capacitá-lo a teorizar, qual seja, se debruçar sobre a realidade para
poder entendê-la e intervir, de acordo com as necessidades e objetivos
elaborados a partir da situação concreta.
O fato é que o educador costuma não
ter método de pesquisa e de trabalho para a transformação da prática. Por isto,
tem se afirmado, cada vez mais, a necessidade do professor reflexivo. Vemos
como fundamental a reflexão do professor (e da escola) se dar em cima de três
dimensões: realidade (onde estamos), finalidade (para
onde queremos ir) e mediação (o que fazer para chegar lá), que
nada mais é do que a estrutura básica do planejamento.
O planejamento, sem dúvida, pode
colocar-se como um instrumento teórico-metodológico para a intervenção
na realidade. Todavia, mais do que instrumento ou ferramenta, queremos
apontar para a possibilidade de entendermos e vivenciarmos o planejamento como
método de trabalho do educador, qual seja, como postura (algo reelaborado e
interiorizado pelo sujeito), como forma de organizar a reflexão e a
ação, como estratégia global de posicionamento diante da realidade.
Referência Bibliográfica:
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Planejamento:
Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-pedagógico. Libertad,
São Paulo, 2000.
No século XX, o planejamento
expandiu-se para todos os setores da sociedade. Atualmente, são identificadas
três grandes linhas em termos de planejamento administrativo: o gerenciamento
da qualidade total, o planejamento estratégico (utilizado na construção do PPP
da SEEDF - Projeto Político Pedagógico Profº Carlos Motta/2012) e o
planejamento participativo. A escola, naturalmente não ficou imune a este
movimento.
Há uma tendência no contexto educacional
de se valorizar as ideias em detrimento da prática e mesmo de superestimar o
poder das ideias, como se bastasse uma ideia clara para que, automaticamente,
acontecesse uma alteração da realidade. Essa tendência pode levar o
planejamento a expressar uma série enorme de boas intenções e coisas que gostaríamos
de fazer, mas que não têm o menor senso da realidade; desvinculando-se das
reais condições materiais e estruturais da instituição e da sociedade. Seria
essa tendência a causa do descompasso entre aquilo que é esperado do professor
e as condições objetivas de trabalho que são oferecidas. Nesse caso, o
planejamento cumpre um papel ideológico, de ocultação das verdadeiras
contradições da realidade, uma vez que somente o enfrentamento dessas
contradições, nas suas bases concretas, é que permitiria a efetiva mudança da
realidade, ainda que num nível e ritmo muito aquém do que desejamos. O idealismo
é a hipertrofia da ideia em detrimento da realidade, é um grande fator de desmoralização
do planejamento: a ideia vai para o papel, mas não acontece.