terça-feira, 24 de julho de 2012

RE-SIGNIFICANDO O PLANEJAMENTO PEDAGÓGICO


Por: Márcia Camargo 
Especialista em Coordenação Pedagógica
1.  Breve Histórico 
Analisando a questão específica do desgaste do planejamento junto aos educadores, levantando algumas hipóteses para explicá-la, percebemos que a atividade de planejar é tão antiga quanto o homem, mas a sistematização do planejamento se dá fora do campo educacional, pois surge ligada ao mundo da produção sendo preconizada por Taylor, configurada em dois termos: objetivos e estratégias. No contexto do modo de produção capitalista, surge com a Revolução Industrial a preocupação com a eficiência do processo produtivo já evidenciando princípios de alienação do trabalho a partir da separação das funções das tarefas de planejamento. Para Taylor, organizar cientificamente o trabalho implicava a distinção radical entre concepção e realização, princípios pautados na eficiência da experiência militar; um empreendimento que desde cedo buscou a eficiência, originando o surgimento da ciência da administração, no final do século XIX; influências que respaldam e justificam essa concepção de planejamento. Interessante observar que as experiências militares determinaram os caminhos das ciências em todas as áreas do desenvolvimento humano. Com a ciência da administração, o campo para o planejamento tecnocrático, é sistematizado focalizando a divisão do trabalho e a hierarquia do poder econômico. 
No século XX, o planejamento expandiu-se para todos os setores da sociedade. Atualmente, são identificadas três grandes linhas em termos de planejamento administrativo: o gerenciamento da qualidade total, o planejamento estratégico (utilizado na construção do PPP da SEEDF - Projeto Político Pedagógico Profº Carlos Motta/2012) e o planejamento participativo. A escola, naturalmente não ficou imune a este movimento. 
Ao Analisarmos a história da educação escolar, percebemos diferentes concepções do processo de planejamento. Apontamos três grandes concepções que vão se manifestar em diferentes momentos da história do planejamento:
a. Planejamento como Princípio Prático
Esta concepção está relacionada à tendência tradicional de educação, em que o planejamento era feito sem grande preocupação de formalização, basicamente pelo professor, e tendo como horizonte a tarefa a ser desenvolvida em sala de aula. Os planos eram apontamentos feitos em folhas, fichas, cadernos (tipo semanário, até hoje utilizado por professoras de séries iniciais), a partir de leituras preparatórias para as aulas. Uma vez elaborados, eram retomados cada vez que ia dar aquela aula de novo, servindo por anos e anos. O planejamento pedagógico do professor no sentido tradicional, a rigor, não era bem um planejamento; era muito mais um roteiro que se aplicaria fosse qual fosse a realidade. No entanto, observa-se que o plano, com efeito, orientava o trabalho do professor, tinha uma função, vale dizer, havia uma estreita relação entre planejar e acontecer.
b. Planejamento Instrumental /Normativo
Esta concepção surge no Brasil, no final da década de sessenta com a tendência tecnicista de educação, de caráter cartesiano e positivista, onde o planejamento aparece como a grande solução para os problemas de falta de produtividade da educação escolar, sem, no entanto, questionar os fatores sociais, políticos e econômicos, até em função de sua pretensão de neutralidade, normatividade e universalidade. A exigência técnica na elaboração do planejamento justifica, ideologicamente, sua centralização nas mãos dos especialistas, fazendo parte de uma ampla estratégia de expropriação do que fazer do educador e do esvaziamento da educação como força de conscientização; favorecendo a alienação e ao mesmo tempo, a competição entre professores e técnicos. Fator relevante na história da educação escolar brasileira, pois ainda hoje, reflete em muitos dos problemas que se colocam na prática escolar. A competição, a disputa de influência e poder, têm sua explicação na origem da função controladora do planejamento educacional como forma de manutenção do sistema.
O saber do professor foi sendo paulatinamente desvalorizado, levando-o a uma perda de confiança naquilo que fazia. Planejar passou a significar preencher formulários com objetivos educacionais gerais, objetivos instrucionais operacionalizados, conteúdos programáticos, estratégias de ensino e avaliação de acordo com os objetivos. Aliado ao processo de desgaste do professor, a má formação, má remuneração, falta de condições de trabalho, surge a indústria do livro didático trazendo o planejamento pronto e quase que induzindo o professor à cópia.
c. Planejamento Participativo
O planejamento participativo é fruto da resistência e da percepção de grupos de educadores, ligados à educação popular, movimentos de base da igreja católica, partidos de oposição aos regimes autoritários; que se recusaram à atuação reprodutora do sistema e buscaram alternativas de fazer educação, portanto, de planejá-la. Nesta concepção de planejamento o saber deixa de ser uma ação de propriedade de especialistas, passando-se a valorizar a construção, a participação, o diálogo, o poder coletivo local, a formação da consciência crítica a partir da reflexão sobre a prática da mudança. Tem como objetivo “a transformação das relações de poder, autoritárias e verticais, em relações igualitárias e horizontais, de caráter dialógico e democrático”. O planejamento é entendido como um instrumento de intervenção no real para transformá-lo na direção de uma sociedade mais justa e solidária.
É preciso clarificar que tais concepções de planejamento não se sucedem linearmente; pelo contrário, convive na mesma realidade e, não raras vezes, no mesmo sujeito. O importante é a tomada de consciência dessas influências e a definição de uma nova intencionalidade para orientar a prática do planejar.
2.  Elementos comprometedores do sentido e força do planejamento:
 a. Idealismo
Há uma tendência no contexto educacional de se valorizar as ideias em detrimento da prática e mesmo de superestimar o poder das ideias, como se bastasse uma ideia clara para que, automaticamente, acontecesse uma alteração da realidade. Essa tendência pode levar o planejamento a expressar uma série enorme de boas intenções e coisas que gostaríamos de fazer, mas que não têm o menor senso da realidade; desvinculando-se das reais condições materiais e estruturais da instituição e da sociedade. Seria essa tendência a causa do descompasso entre aquilo que é esperado do professor e as condições objetivas de trabalho que são oferecidas. Nesse caso, o planejamento cumpre um papel ideológico, de ocultação das verdadeiras contradições da realidade, uma vez que somente o enfrentamento dessas contradições, nas suas bases concretas, é que permitiria a efetiva mudança da realidade, ainda que num nível e ritmo muito aquém do que desejamos. O idealismo é a hipertrofia da ideia em detrimento da realidade, é um grande fator de desmoralização do planejamento: a ideia vai para o papel, mas não acontece.
b. Formalismo
Tendência em que o planejamento é desprovido de sentido para o sujeito, o burocratismo, com certeza é outro fator que gera profundo desgaste da ideia de planejar. Cumprir prazos não discutidos, preencher formulários impostos, ter que se adequar a um saber já pronto, técnico, etc. O professor vai tomando consciência de que o planejamento é uma prática cartorial, uma exigência formal que não tem repercussão alguma no cotidiano; a elaboração do planejamento de ensino fica desconexa, desarticulada justamente por não haver um planejamento integral da escola que dê direção, unidade e sustentação a todo trabalho. Toda essa distorção na elaboração, naturalmente, acaba levando a um comprometimento da execução e, portanto, dos resultados, configurando o descrédito. Quando a ênfase da escola está voltada para o apoio à mudança da prática em sala de aula, até que o professor se dispõe a repensar o ‘planejamento’; no entanto, quando a ênfase está na ‘escola de papel’, o professor se fecha, não acredita. Constata-se amiúde uma incoerência entre a importância que a escola diz que o planejamento tem e as condições para se fazer um trabalho de acompanhamento do mesmo.
c. Não-participação
O planejamento pode ser utilizado como instrumento de disciplinamento de professores e alunos, como meio de dominação, na medida em que um pequeno grupo planeja e decide o destino de um grande conjunto de pessoas, que deverão apenas executar, estabelecendo um processo de desumanização, de alienação, já que é próprio do ser humano, uma unidade e não uma separação entre pensar e fazer, o analisar e o decidir, o construir e o usufruir. Uma prática utilizada por gestores sem espírito democrático é propiciar a participação em algumas questões menores, periféricas, sendo que as essenciais, já vêm decididas (normalmente descritas como prescrição do departamento central): enquanto os professores estão discutindo se a cor da parede da sala deve ser verde ou azul, a equipe gestora discute a estratégia de matrícula.
3. Conclusão
Na representação do professor, o planejamento acabou ficando marcado tanto pelo “não é possível planejar”, quanto pelo “não é necessário, da forma como vem acontecendo não resolve”. Nosso desafio é resgatá-lo como “POSSÍVEL e NECESSÁRIO”. Será que o educador não pode dominar o seu fazer? Será possível ao educador saber o ‘porque e o para quê do seu fazer pedagógico? Re-significar o planejamento para o sujeito implica resgatar suas necessidades e possibilidades, em dois níveis: as necessidades de mudança e as possibilidades de mudar.
Para estabelecer um referencial de comunicação, esboçamos inicialmente um conceito: planejar é antecipar mentalmente uma ação a ser realizada e agir de acordo com o previsto; é buscar fazer algo incrível, essencialmente humano: o real comandado pelo ideal. Pois planejar ajuda a concretizar aquilo que se almeja. Aquele algo que planejamos é possível acontecer; podemos em certa medida, interferir na realidade. Constatamos não poucas vezes, que o professor, diante de problemas que não domina, fica desarvorado, não sabe como enfrentar, acusa, se irrita, agride. Não sabe o que fazer. E por que não sabe? Porque não sabe o que quer. E por que não sabe para onde quer ir? Porque não sabe onde está, não sabe o que é que condiciona sua ação... 
Confrontado com a formação que teve, verifica-se que esta, com frequência, foi de caráter meramente prescritivo (conjunto de orientações, quase mesmo receitas, de como “se deve agir”), ao invés de capacitá-lo a teorizar, qual seja, se debruçar sobre a realidade para poder entendê-la e intervir, de acordo com as necessidades e objetivos elaborados a partir da situação concreta. 
O fato é que o educador costuma não ter método de pesquisa e de trabalho para a transformação da prática. Por isto, tem se afirmado, cada vez mais, a necessidade do professor reflexivo. Vemos como fundamental a reflexão do professor (e da escola) se dar em cima de três dimensões: realidade (onde estamos), finalidade (para onde queremos ir) e mediação (o que fazer para chegar lá), que nada mais é do que a estrutura básica do planejamento.
O planejamento, sem dúvida, pode colocar-se como um instrumento teórico-metodológico para a intervenção na realidade. Todavia, mais do que instrumento ou ferramenta, queremos apontar para a possibilidade de entendermos e vivenciarmos o planejamento como método de trabalho do educador, qual seja, como postura (algo reelaborado e interiorizado pelo sujeito), como forma de organizar a reflexão e a ação, como estratégia global de posicionamento diante da realidade.
 
Referência Bibliográfica:
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-pedagógico. Libertad, São Paulo, 2000.

  

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Enxergar o OUTRO... É quase uma arte!


No cotidiano, constantemente me deparo com a expressão: "Nossa, aqui me sinto como se estivesse em casa." Na escola é recorrente: "Somos como uma família." Sempre me questiono sobre a positividade dessas expressões no ambiente de trabalho...
Acredito que é impossível segmentar o ser humano para adequar-se aos ambientes, haja vista que uma das características marcantes do HUMANO é a subjetividade. No entanto, as relações interpessoais, apesar de permeadas pela subjetividade individual, exigem monitoramento constante daquilo que se fala, da forma como olha e até o sorriso.
Percebo que quando um grupo estabelece uma relação na qual os indivíduos se sentem seguros, como se fossem uma "família", essa segurança gera um descompromisso com os cuidados necessários no estabelecimento e manutenção das relações entre os sujeitos. Ocasionando desconforto, conflitos, solidão e até desrespeito ao OUTRO.
Vivenciamos hoje, uma pluralidade de valores que refletem a sociedade individualista e consumista; vivemos o tempo do TER. De forma vigorosa, nos perdemos pelo caminho em busca de objetivos que já não preenchem nossas expectativas. Aliás, já não conseguimos tempo para pensar em quais são essas expectativas. Raramente conseguimos perceber onde queremos chegar. Se enxergar minhas expectativas já é complicado, imagina a complicação que é enxergar as expectativas do OUTRO. Enxergar o OUTRO como companheiro de jornada, exige respeito, capacidade de ouvir e a habilidade em estabelecer a comunicação com diálogo ético e valoroso.
A eloquência do discurso eleva a alma ao positivismo ou ao negativismo, pois carregados da subjetividade, cada componente de um grupo de trabalho recebe a mensagem transmitida e interage com ela a partir da sua história de vida. Algumas histórias passadas em gaiolas; outras, em voos livres de exploração e descobertas... Mas na essência, o que todos buscam é a realização pessoal que alguns denominam de felicidade.