Memorial

No decorrer da minha caminhada profissional, tenho vivido intensamente cada trecho percorrido. Acredito que tive a oportunidade de escolher conscientemente a profissão a ser seguida. Sempre busquei conciliar razão e emoção; nessa busca encontrei o magistério como resposta. Entre o curso técnico de contabilidade e o magistério, antigo curso normal; as duas opções que tinha, escolhi com segurança o magistério.
Em muitos momentos me senti ansiosa, em outros, angustiada; não pelo fato de achar que estava na profissão errada, mas por encontrar desafios no caminho. Aliás, os desafios que encontro a cada ano letivo, é o que me instiga e trás motivação profissional. Gosto do que faço. Ser professora é mais do que minha fonte de renda, é o meu ofício pessoal.
Quando iniciei minha carreira, era uma professora apaixonada pelo ensinar e tinha como orientação, a educação dita “tradicional”. Sentia segurança na forma como ensinava e essa era a forma certa de desenvolver meu trabalho. Era diligente em fazer com que meus alunos treinassem e memorizassem os conhecimentos ensinados. Essa postura prevaleceu durante muitos anos. Mesmo tendo praticamente concluído um curso de pedagogia em 1987, o qual por questões familiares não foi concluído. Até 1992 continuava tendo a crença nos princípios educacionais baseados na transmissão e mensuração do conhecimento.
Em 1992, ao entrar na antiga FEDF, comecei a trabalhar com educação infantil numa escola da rede que seguia a linha construtivista. Os exercícios mimeografados com pontilhados haviam sido substituídos por atividades lúdicas e registros espontâneos ou livres que faziam representações das vivências proporcionadas às crianças. A princípio fiquei chocada. Era tanta brincadeira, tanta tinta, massa de modelar, rótulos, sucatas. As dificuldades foram grandes. Trabalhar daquela forma, era muito difícil, pois não acreditava que tanta brincadeira e tanta liberdade propiciassem uma aprendizagem de qualidade. Passei por um processo de mudança de expectativas e nesse processo minhas colegas foram de fundamental importância, sempre fundamentando suas respostas aos meus questionamentos. O horário de coordenação era um momento de troca e ajuda. Ofereciam espaço para conversar e trocar ideias, mesmo quando as minhas eram contrárias ou diferentes, elas sempre argumentavam com um: “Você não acha que se for assim, também pode ser legal! Experimenta fazer assim, acho que vai gostar...” Mesmo pensando diferente, me sentia parte do grupo e aos poucos fui percebendo que realmente, dava certo.
Acredito naquele princípio da pessoa referência na vida de cada um. Profissionalmente, tenho três pessoas como referência. As professoras e colegas Iacy e Heloísa, professora Jupira, então coordenadora intermediária da educação infantil, que sutilmente pesquisava e oferecia subsídios teóricos que fundamentavam a nossa prática. São pessoas que plantaram uma semente de conhecimentos e cultivaram no dia-a-dia, uma relação de crescimento profissional que com certeza reflete no que sou hoje. Uma professora que acredita no aprender com o corpo. Acredito que aprender percebendo o mundo e o que há nele é mais significativo. Aprender compartilhando e contrapondo ideias, sentimentos e percepções, certamente nos possibilita uma sistematização do conhecimento.
Outra experiência marcante foi a proposta da Escola Candanga. Muitos não gostaram, pois a mesma trouxe para a escola um novo desafio, a necessidade de assumir compromissos que iam além dos muros da escola. Trabalhar com a comunidade escolar participando do trabalho pedagógico, a criação dos conselhos escolares, a gestão democrática e a formação de turmas por ciclos de idade, não foi um colírio aos olhos de muitos professores. Para vestir essa camisa, fez-se necessário abrir a escola para os pais e chamá-los a participar. Aparentemente, essa abertura usurpava os poderes pedagógicos dos professores. No entanto, percebo a Escola Candanga como um marco na história da educação no DF. Foi a partir dela, que pudemos sentir o gosto da autonomia. Tivemos a oportunidade de nos descobrir como educadores. Os alunos puderam perceber-se como sujeitos, pois a prática pedagógica preconizava uma educação voltada para a formação do indivíduo como sujeito possuidor de cidadania e autonomia.
Em 2001, tive a oportunidade de participar do curso oferecido pelo convênio da SEEDF e a UnB, o PIE – Pedagogia para professores em exercício no início da escolarização. Foi um processo de formação docente que gerou estímulo e muita inquietação. A contextualização do conhecimento foi efetivada conciliando teoria e prática. Foi envolvente e provocou mudanças. Descobri o sabor da pedagogia de projetos e percebi que nas escolas, colegas que fizeram o curso, aposentaram o caderno de planejamento amarelado que era usado ano após ano. Hoje, ao iniciar o ano letivo, a primeira preocupação é conhecer a turma, fazer o levantamento diagnóstico e estruturar o projeto pedagógico para trabalhar com a turma.
Em 2008, mais uma oportunidade de formação proporcionada pela SEEDF em convênio com a UnB, o curso de especialização na área de coordenação pedagógica. Na escola éramos quatro colegas fazendo o curso. Aproveitado os momentos da coordenação para compartilhar impressões e ajudar quem não tem intimidade com o computador. Esse envolvimento, propiciou uma relação colaborativa que abriu espaço para o diálogo com outras colegas que estão fazendo outros cursos.
De 2009 à 2011, trabalhei na coordenação intermediária do Serviço Especializado de Apoio à Aprendizagem - SEAA. Uma experiência que possibilitou a prática de habilidades inerentes a coordenação pedagógica. Lidar com indivíduos possuidores de competências específicas, com a diversidade dos contextos escolares e dos próprios indivíduos que compõe o SEAA, foi desafiador e estimulante. Fazer parte do grupo foi uma barreira inicial ultrapassada com ações de mediação, fundamentadas no princípio da parceria. Parceria constituída com muito estudo, pesquisa, reflexão, avaliação e autoavaliação. Tomar conhecimento do funcionamento, das dificuldades e possibilidades foi fundamental para a efetivação das ações de coordenar professoras pedagogas e psicólogas, que atuavam no contexto escolar com o objetivo de desenvolver ações na busca do sucesso escolar.
Atualmente, trabalho numa escola de educação infantil compondo a Equipe Especializada de Apoio à Aprendizagem - EEAA. Os desafios são diários e o maior deles é me fazer presente e atuante quando no contexto escolar onde a EEAA parece ser invisível. Mas insisto e persisto captando a reverberação que me indica o caminho.   
Na minha caminhada profissional, a cada passo, a cada trecho percorrido, percebo que construí e reconstruí percepções, sentimento, pensamentos, enfim, construí e reconstruí conhecimentos. Errando e acertando, continuo em busca de respostas as indagações que me ajudam a ultrapassar barreiras, vencer obstáculos e às vezes desisto para recomeçar. Mas, sempre encontro forças e estímulos para continuar. 
Acredito ser impossível viver plenamente, sem que a semente da esperança seja cultivada dia após dia. Tenho convicção que o amanhã sempre nos oferece a possibilidade de recomeçar. Por isso, sou professora.

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